Opinião: o que a Paraíba precisa observar sobre o dono do grupo da TV Norte Paraíba

Redação Portal de JP

A expansão do Grupo Norte de Comunicação para a Paraíba não pode ser analisada apenas como um movimento empresarial comum no mercado de mídia. Quando o controlador do grupo é Sérgio Roberto Melo Bringel, personagem recorrente em investigações, denúncias e reportagens nacionais envolvendo, supostamente, corrupção, desvio de verbas públicas e uso político da comunicação, o debate precisa ser mais profundo e responsável.

Bringel não é um empresário desconhecido do noticiário policial e judicial. Ele chegou a ser preso em uma das fases da Operação Maus Caminhos, que investigou o desvio bilionário de recursos da saúde pública do Amazonas. Desde então, seu nome aparece com frequência em denúncias que ligam interesses empresariais, contratos públicos e estratégias de pressão política por meio da mídia.

O histórico recomenda cautela. Em 2021, o portal Laranjeiras News, do Amazonas, acusou Bringel de utilizar a então TV Em Tempo, afiliada do SBT em Manaus, como instrumento de pressão contra empresários e governos. Segundo a denúncia, a emissora serviria como mecanismo de proteção midiática para seus interesses privados e como ferramenta de constrangimento público contra quem contrariasse seus negócios, especialmente no setor ambiental, por meio da empresa Norte Ambiental, também de sua propriedade.

No ano anterior, em 2020, o mesmo portal apontou que Bringel teria articulado a ida do jornalista Roberto Cabrini ao Amazonas para expor problemas na saúde pública, não como exercício legítimo do jornalismo investigativo, mas como estratégia de barganha para pressionar o governo estadual a ampliar verbas de publicidade institucional. Se verdadeira, a prática representa uma distorção grave do papel da imprensa, transformada em moeda de troca.

As denúncias não se limitam ao Amazonas. Em abril de 2020, reportagem do Metrópoles revelou que uma empresa ligada a Bringel foi contratada pelo Governo do Distrito Federal para gerir 197 leitos de um hospital de campanha no Estádio Mané Garrincha, em plena pandemia. O contrato, feito por dispensa de licitação, ultrapassou R$ 79 milhões, valor que por si só já justificaria escrutínio rigoroso.

O mesmo texto jornalístico destaca que Bringel responde a acusações de peculato e organização criminosa na Justiça Federal. Segundo o Ministério Público Federal, ele teria causado prejuízo direto de R$ 1,3 milhão aos cofres públicos, número que, de acordo com os investigadores, pode ser apenas uma fração do dano real, diante de indícios de superfaturamento e ausência de prestação efetiva dos serviços contratados.

Nada disso é irrelevante. Quando um empresário com esse histórico amplia seu controle sobre veículos de comunicação em outro estado, o alerta não é ideológico, é institucional. A imprensa exerce papel central na fiscalização do poder, na formação da opinião pública e na defesa do interesse coletivo. Quando há suspeitas de que ela possa ser instrumentalizada para proteger negócios, pressionar governos ou silenciar críticas, a sociedade precisa estar atenta.

A Paraíba não está proibida de receber investimentos, nem de conviver com grandes grupos de mídia. Mas tem o direito e o dever de questionar quem controla a informação, quais são seus interesses e qual passado acompanha esses projetos. Comunicação não é apenas negócio. É poder. E poder, quando concentrado nas mãos erradas, cobra um preço alto da democracia.

Por Antônio Almeida Junior

Foto: Gabriel Freitas/Divulgação

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